Jogo perigoso no Oriente Médio
A atual ofensiva israelense nos territórios da Autoridade Nacional Palestina (ANP) deixou o mundo chocado e perplexo. O primeiro ministro Ariel Sharon resolveu jogar tudo ou nada, numa atitude intransigente que tem ignorado os apelos da comunidade internacional e as próprias pressões norte-americanas. Que propósitos persegue e como consegue manter esta postura?
Sem dúvida, o objetivo central do governo Sharon é enterrar o processo de paz e fazer abortar os Acordos de Oslo, que criaram a ANP. Este objetivo não é novo, pois o próprio Sharon, há mais de dez anos, vem se opondo frontalmente à qualquer concessão aos palestinos e ao conceito da ala liberal israelense e da comunidade judaica em geral de "ceder terra em troca da paz interna e externa". Isto implica em reconhecer os direitos nacionais palestinos, em troca do reconhecimento de Israel por estes e pelos países vizinhos.
Esta estratégia estava avançando, ainda que com dificuldades, em função da conjuntura criada com o fim da Guerra Fria, que reduziu o papel estratégico do Estado de Israel na região, e também pela consciência do risco que o crescimento do fundamentalismo islâmico representava. Mas o assassinato do primeiro ministro Rabin por um militante da extrema-direita israelense, marcou o início de uma reação interna. Os conservadores voltaram ao poder com Nethanyau, até que, por pressão do governo Clinton, o processo de paz foi retomado, especialmente pelo governo trabalhista de Barak.
Revoltada com a retirada do sul do Líbano e a abertura de negociações com a Síria e sobre Jerusalém oriental, que os árabes chamam de Al-Qods, a direita israelense aprofundou a desestabilização do governo Barak. A visita de Sharon à Esplanada das Mesquitas em Jerusalém em setembro de 2000 foi a gota d'água que fez tudo transbordar, tendo início a Segunda Intifada (revolta palestina), com atentados suicidas e represálias terríveis e desmedidas por Israel.
Sharon venceu as eleições e partiu para o enfrentamento aberto com a ANP, e em diveras oportunidades anunciou em público seu desejo de eliminar Arafat. Isto se combinou com a eleição de Bush e as consequências dos atentados de 11 de setembro de 2001 (que segue sendo um mistério), para criar uma histeria mundial contra os árabes e muçulmanos e para legitimar a "luta contra o terrorismo". Pressionado este ano a retomar as negociações, devido às necessidades americanas de buscar apoio árabe para ações contra o Irã e o Iraque, Sharon resolveu jogar tudo ou nada. Ele tem o apoio de "falcões" dentro do governo americano e está confiante no poder de Israel, uma potência nuclear. Além disso, a maior parte da opinião pública americana, devido ao 11 de setembro, e da israelense, devido aos atentados suicidas palestinos, apoia a política de Sharon.
Contudo, a violência com que a ofensiva israelense está se realizando, mobilizou a opinião pública mundial e árabe. Centenas de mortos e feridos, recusa à assistência médica, isolamento de Arafat (como seus compatriotas, privado de água e energia elétrica), as árvores arrancadas nas cidades palestinas, a destruição dos reservatórios de água das residências civis e a proibição de acesso da imprensa à Jenin (onde foi denunciado um massacre), chocaram o mundo e, inclusive, parte da opinião israelense. Centenas de jovens soldados judeus se recusam a entrar nas áreas ocupadas e são julgados desertores. Um representante do Ministério do Exterior israelense chegou a declarar à CNN que o conceito de território ocupado é um mito inventado.
Este jogo perigoso ameaça desestabilizar muitos regimes árabes e cria problemas estratégicos que o governo americano não tem condições de resolver. O Afeganistão, por sua vez, não dá sinais de estar pacificado. A falta de uma liderança coordenada por parte dos EUA, neste contexto, parece condenar o mundo a uma instabilidade ainda maior, e a missão do secretário de estado Collin Powell à região ainda não rendeu frutos. A ação israelense, por sua vez, está criando uma perigosa onda de anti-semitismo, num cenário político já caracterizado pelo crescimento da extrema-direita, com confrontos entre manifestantes por todo mundo. O sistema internacional encontra-se bastante fragilizado para poder absorver a atual crise sem maiores consequências. Assim, encontrar uma solução negociada para o atual impasse e para a onda de violência que dele resulta, é uma tarefa urgente |