Recentemente o governo norte-americano identificou alguns Estados como constituindo uma ameaça à sua segurança e à estabilidade mundial. Estes "Rogue States" formam, segundo a administração Bush, um "Eixo do mal", estariam envolvidos com o terrorismo e seriam detentores de armas de destruição massiva. A Casa Branca referiu, explicitamente, Líbia, Síria, Coréia do Norte, Iraque e Irã, concedendo prioridade aos dois últimos, inclusive anunciando que pretende atacar o Iraque, "provavelmente em 2003". Considerando que o Iraque é um país esgotado por mais de uma década de embargo e o Irã está sendo governado por reformistas favoráveis à normalização das relações com os EUA, que razões teria Washington para desenvolver tal política?
Sem dúvida Saddam Hussein e seu regime representam velhos inimigos que sobreviveram à Segunda Guerra do Golfo e, se possuissem meios, agiriam contra os interesses norte-americanos. Mas até agora o Iraque foi útil à diplomacia dos EUA para o Oriente Médio, na medida em que sua existência justifica uma presença militar substancial na região. Da mesma forma, o país tem servido de elemento de diversão de problemas internos da política americana, como o escândalo Mônica Lewinsky e eleições muito disputadas. Todavia, considerando-se o fato da atual debilidade iraquiana, por que colocar o país como alvo prioritário da máquina militar dos EUA?
Na verdade, um ataque ao Iraque representa apenas um passo adicional contra o que a administração Bush percebe como o real inimigo, o Irã. Apesar do ímpeto da Revolução Iraniana já haver se esgotado e de o país estar normalizando suas relações com a comunidade internacional, sua diplomacia independente, suas alianças externas e sua posição geopolítica representam um problema para os Estados Unidos. A recuperação e modernização da economia surpreendem os visitantes e permitem ao país dotar-se de meios militares modernos. O possível domínio da tecnologia nuclear e de mísseis são percebidos pela Casa Branca como uma ameaça, na medida em que tais elementos permitem ao Irã jogar o papel de uma potência média regional.
Estas tecnologias são geralmente repassadas pela Rússia que, ao lado da Índia, é uma das grandes aliadas do governo de Teerã. Os demais vizinhos são inimigos mais ou menos declarados do Irã: a Turquia (membro da OTAN), o Azerbaijão, o Turcomenistão, o Paquistão e o Afeganistão (cujo novo regime é tutelado pelas potências ocidentais). Mas todos estes países, se por um lado contribuem para um certo isolamento geográfico do Irã, por outro estão distantes dos centros populacionais e econômicos (especialmente o petróleo) deste país. Estes estão próximos do Iraque, que representa uma fronteira segura para o Irã.
Assim, o controle Ocidental sobre o Iraque representaria um isolamento físico quase total do Irã, pois todas as fronteiras terrestres lhe seriam hostis. Assim, a sobrevivência iraniana seria posta em risco e o país teria de renegociar suas alianças internacionais. Para os EUA isto seria muito importante, pois o Irã ocupa uma posição estratégica em relação à Ásia central, pois em termos de transportes e de escoamento do petróleo e do gás produzidos nesta região, o país representa a melhor opção. Esta é, provavelmente, a explicação mais plausível para a hostilidade norte-americana em relação à Teerã, ao lado das confusas conexões islâmicas. Neste sentido, um bom analista das relações internacionais necessita compreender os fatos mais além do discurso político e das justificativas formais.
Uma nova guerra dos EUA contra o Iraque? - 1ª parte
Novamente o governo norte-americano ameaça e toma providências concretas para atacar o Iraque. Mas desta vez encontra resistência entre seus próprios aliados europeus e do Oriente Médio, além da oposição aberta dos demais membros do Conselho de Segurança da ONU. Além disso, a posição iraquiana é de fazer concessões, ao contrário de outras ocasiões. Por que razão Bush deseja atacar o Iraque se, reconhecidamente, este país encontra-se profundamente debilitado, sob um embargo de 12 anos, e não representa uma ameaça real?
As razões deste ataque residem em problemas internos dos EUA, como a crise econômica, a necessidade de aumentar os recursos para a indústria armamentista e de dar continuidade à "guerra ao terrorismo". No plano externo, trata-se de completar o cerco ao Irã, verdadeiro alvo da pressão americana na região, pois este país é qualitativamente mais forte que o Iraque e está saindo do seu isolamento, estreitando relações com os países europeus e a aliança com a Rússia, o que perturba a estratégia da Casa Branca em relação ao Afeganistão e a Ásia central. O mercado do petróleo e, especialmente o acesso europeu ao mesmo, parece também fazer parte da trama que se esboça. Mas Saddam Hussein, o autoritário líder iraquiano mantém o controle sobre seu país e parece disposto a resistir
.A Guerra do Golfo
Em agosto de 1990 o Iraque, mergulhado na crise interna, abandonado pelas petromonarquias da península arábica (suas ex-aliadas contra o Irã) e discretamente avalizado pelos EUA (cuja estratégia então baseava-se nos Conflitos de Média Intensidade), invadiu o Kuwait. Este país possuía litígios fronteiriços com o Iraque, negava apoio financeiro à reconstrução do antigo "protetor", manifestava o desejo de cobrar a dívida contraída por Bagdá na guerra contra o Irã (encerrada em agosto de 1988), e ainda manobrava na OPEP para reduzir o preço do petróleo. A ação foi condenada unanimemente pelo Conselho de Segurança da ONU, que decretou medidas como embargo econômico e envio de tropas à região com uma rapidez nunca vista, mostrando que Saddam havia caído numa armadilha, e evidenciando o poder e a determinação dos EUA. Saddam temia ter o mesmo fim de Noriega e Ceaucescu, e resolveu jogar tudo ou nada.
Em 15 de janeiro de 1991, os americanos e seus aliados atacaram militarmente um país isolado há meio ano, destruindo-o por completo. Enquanto o trabalho de cobertura jornalística da guerra era censurado, a rede de televisão CNN colaborava com a Casa Branca apresentando uma visão oficiosa do conflito, que era mostrado como um grande show tecnológico sem sangue ("guerra cirúrgica"). Além dos objetivos militares, os EUA atacaram maciçamente alvos civis e destruíram completamente a infra-estrutura do país. Saddam tentou provocar Israel a entrar na guerra lançando mísseis Scud, com o objetivo de dividir a coalizão adversária, mas não teve sucesso. Quando iniciava a retirada de suas tropas do Kuwait (em meio ao incêndio de poços de petróleo), os americanos iniciaram a ofensiva terrestre, inclusive contra o território iraquiano, num gesto que extrapolava o mandato do Conselho de Segurança da ONU. Neste momento, países europeus e árabes da coalizão, bem como a URSS, opuseram-se ao avanço, que se deteve no sul do Iraque.
O isolamento internacional do Iraque
Saddam Hussein, entretanto, manteve-se no poder e derrotou as revoltas curda no norte e xiita no sul, embora o Iraque tenha continuado isolado pelo embargo internacional até o presente, com o objetivo de evitar a reconstrução do país, justificar a presença militar na região e impedir que Bagdá voltasse ao mercado do petróleo. Conquanto os EUA tenham demonstrado sua arrasadora superioridade militar, necessitaram de enorme apoio financeiro por parte de seus aliados para realizar a "Operação Tempestade no Deserto".
Durante o longo embargo, a população iraquiana padeceu sofrimentos imensos, mas o poder interno de Saddam não foi abalado. Os vizinhos, inclusive a pró-ocidental Turquia, preferiam um governo estável que controlasse os curdos e xiitas e mantivesse o equilíbrio regional. Os norte-americanos, por sua vez, implantaram-se solidamente na região, reduzindo a influência dos países europeus e de potências médias como o Brasil (que fornecia armas e serviços em troca de petróleo). Por outro lado, Washington sempre utilizou um Iraque demonizado como instrumento para desviar a opinião pública de outros problemas (escândalo Mônica Lewinsky ou venda de armas às petromonarquias).
Uma nova guerra dos EUA contra o Iraque? - 2ª parte
Dando continuidade ao artigo anterior, e concluindo-o, observa-se que as pressões americanas sobre seus aliados continuam, com o vice-presidente norte-americano Dick Cheney reafirmando a necessidade de atacar o país para derrubar Saddam Hussein, que estaria se fortalecendo a cada dia. Na verdade, o fortalecimento do autocrata iraquiano não é militar, até porque não há condições materiais para isto, mas diplomático, na medida em que a cada dia cresce a oposição internacional a um ataque. Para compreender-se adequadamente as posições dos diversos protagonistas desta trama, é necessário descrever a evolução dos acontecimentos nestes doze anos de embargo internacional, um recorde dividido com a Líbia, que recentemente logrou normalizar sua inserção internacional.
O embargo atingiu duramente a população iraquiana, que sofreu enormes padecimentos, mas foi incapaz de reduzir o poder de Saddam Hussein que, pelo contrário, reforçou seu controle interno do país, embora sem desenvolver capacidades de ação militar externa. Seu único meio de agir foi, até 1999, fazer um jogo de aceitação e recusa das inspeções da ONU em seus arsenais. Então, no final do governo Clinton, jogou cartas mais ousadas, expulsando a equipe de inspetores e sofrendo os bombardeios da chamada Operação Raposa do Deserto. Depois desta, logrou normalizar suas relações com vários países, até que o advento da administração Bush e sua "Guerra contra o terrorismo" voltaram a exercer pressão sobre o regime de Bagdá, em meio à atual crise.
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