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O conflito na Irlanda do Norte |
A retomada dos atentados e assassinatos, que caracterizam o conflito entre protestantes e católicos na Irlanda do Norte, indica que este problema ainda está longe de ser solucionado, como igualmente acontece com os Bascos na Espanha. A Irlanda, uma ilha ao lado da Grã-Bretanha cuja população é de origem celta e católica, foi dominada pelos ingleses, de origem germânica e professando religiões reformadas, especialmente anglicanos. A dominação inglesa na Irlanda deixou marcas e traumas profundos, com o confisco da terra, expulsão de camponeses (que emigraram maciçamente para os Estados Unidos) e a destruição das florestas, utilizadas como combustivel no início da industrialização inglesa.
A dominação e a pobreza a que os irlandeses foram submetidos nutriram um arraigado e ativo nacionalismo. Logo após a Primeira Guerra Mundial, depois de várias revoltas, a República da Irlanda (Eire, em irlandês) ficou independente, com a capital em Dublin (Baile Átha Cliath, em irlandês). Mas o Norte, industrializado e com colonos ingleses, permaneceu vinculado à Inglaterra (cujo nome oficial é Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte), sendo Belfast a capital regional. Um terço da população, mais pobre, com baixos salários e alto desemprego, é composta por irlandeses.
Esta situação fez com que na década de 1970 eclodisse um movimento urbano de protesto, que foi reprimido violentamente, com vários mortos, no Domingo Sangrento (o Bloody Sunday). O Ira, Exército Republicano Irlandês, braço armado do Partido Sinn Fein, passou a empregar atentados, ações armadas e guerrilha urbana. O governo central inglês ocupou militarmente a província, face à intensificação do conflito intercomunitário. Os protestantes, por sua vez, também criaram milícias armadas e grupos terroristas. A violência se estendeu por quase três décadas, atingindo inclusive o território inglês, Londres em particular.
Subsídios do governo central procuraram atenuar a crise social desta região, cuja decadência se aprofundou ainda mais devido ao conflito. Além disso, havia ainda o custo da manutenção de imensas unidades do exército. Obscuros vínculos do Ira com o terrorismo internacional foram denunciados por Londres, alguns bastante prováveis, outros claramente fantasiosos. Mais importante, contudo, é o apoio dos irlandeses radicados nos EUA, principalmente na região de Boston, que enviam dinheiro e apóiam a aquisição de armas, em operações muitas vezes facilitadas por certas agências e grupos norte-americanos, com os propósitos mais variados, como por exemplo, disputas em torno do petróleo do Mar do Norte.
Todas as tentativas de negociação foram abortadas, seja pelas facções extremistas dos dois lados, como pela importância que o eleitorado protestante da Irlanda do Norte tinha na decisão das eleições britânicas. Assim, Londres ficou refém destes. Mas com a ascensão dos trabalhistas em 1997, Tony Blair afirmou que o governo não mais pagaria subvenções à região, e que o processo de paz deveria ser implementado. Desta vez, por razões orçamentárias, houve uma real vontade política, e os protestantes tiveram que ceder. Formou-se um bloco capaz de manter um governo relativamente estável na região, embora facções minoritárias de ambos os lados, e provocações como as marchas protestantes por bairros católicos (comemorando a ocupação da ilha), perturbassem o processo.
A solução do conflito é mais provável que a do Oriente Médio, e o processo tende a avançar, apesar do retorno de uma violência limitada. Hoje os extremistas estão bastante isolados. Mas há problemas práticos a resolver. O que não está claro, e é isto o que mais preocupa os protestantes, é uma virtual administração compartilhada do território com a República da Irlanda, ou mesmo sua devolução. Estas possibilidades, anteriormente não aceitas na Inglaterra, tornaram-se possíveis graças às devolutions, que concedem mais poder à Escócia e ao País de Gales, dentro do Reino Unido.
Obviamente o caso da Irlanda do Norte é mais complicado, e encontra-se vinculado ao renascimento céltico e irlandês em particular. Provavelmente a União Européia fornecerá o marco institucional para algum tipo de arranjo definitivo, com o reforço do papel das regiões. Certamente, ainda um longo caminho será necessário, mas os principais protagonistas estão dispostos (ou são forçados pelas circunstâncias) a negociar o fim do conflito, pelo menos em sua versão armada. Os atuais e futuros atentados tendem a se diluir no longo prazo.
A divisão do Chipre e seu ingresso na União Européia
A República do Chipre, que se encontra em vias de ingressar na União Européia, é um país dividido há exatamente trinta anos, com sua parte norte (40% dos 9 mil quilômetros quadrados) ocupada pela Turquia. Mas o ingresso na UE ainda está condicionado à assinatura de um acordo de pacificação proposto pelas Nações Unidas, que estabelece uma federação entre a parte greco-cipriota e a turco-cipriota.
A ilha, situada no Mediterrâneo oriental e povoada por gregos, foi ocupada pelos turcos em 1571. Estes introduziram colonos de origem turca e massacraram comunidades gregas, mas depois passaram a viver misturados entre eles. Em 1878 a Turquia cedeu a ilha à Inglaterra, e em 1931 teve início um movimento político em favor da enosis (anexação à Grécia, como ocorrera com a ilha de Creta em 1913), liderado pela Igreja Ortodoxa (cristã). Não sendo possível realizar tal objetivo (devido ao veto da Turquia), o movimento nacionalista EOKA passou a lutar pela independência, empregando táticas de guerrilha.
Em 1960 a ilha ficou independente, com o Arcebispo Makarios sendo eleito presidente, reeleito em 1968 e em 1973. Na época a população somava pouco mais de meio milhão, sendo 80% de origem grega e o restante turca. Os ingleses conservaram as bases militares deAkrotiri e Dhekhélia (até o presente), devido à posição estratégica da ilha, em frente do Líbano, Síria, Turquia e Israel. Makarios desenvolveu uma ativa diplomacia anti-colonialista dentro do Movimento dos Países Não-Alinhados (sendo chamado de "Fidel Castro do Mediterrâneo"). A relação entre as duas comunidades sempre foi complicada.
Em 1974 um grupo de oficias greco-cipriotas direitistas derrubou o governo, instigados pela Ditadura dos Coronéis da Grécia, com o objetivo de realizar a enosis. Quatro dias depois, 19 de julho, a Turquia invadiu o norte da ilha, ocupando 40% dela e expulsando 200 mil gregos para o sul. Ao mesmo tempo, o fracasso dos golpistas também ocasionou a queda da ditadura grega. Makarios retornou em dezembro e governou até sua morte, em 1977. Na parte turca, foi proclamada a República Turca do Norte do Chipre em 1983, comandada por Rauf Denktash, que somente foi reconhecida pela Turquia. Forças da ONU guardam até hoje a linha de cessar fogo, que divide o país e corta a capital, Nicósia, em duas partes.
A proporção da população total não se alterou, mas no norte os turco-cipriotas constituem hoje apenas metade do total, pois chegaram 40 mil imigrantes e 35 mil soldados da Turquia, enquanto 20 mil turco-cipriotas emigraram. A parte sul (greco-cipriota) enriqueceu, na medida em que substituiu o Líbano como centro financeiro nos anos 80, devido à guerra, além do incremento do turismo, do setor de serviços e da lavagem de dinheiro oriundo do leste europeu depois de 1989.
Nos anos 90 começou a discussão sobre o ingresso na União Européia, complicada pela divisão do país. Para que o norte, povoado por turcos, possa ingressar como parte do país, é necessária a reunificação sob a forma de uma federação. Para tanto, o Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, negociou um acordo, que está dependendo de um plebiscito. O plano prevê certo recuo dos turcos (20% da população ocupando 40% do território). O governo do norte não deseja, mas a maioria da população sim, enquanto do lado greco-cipriota, muitos desejam recuperar suas propriedades no norte da ilha e criam impasses. Assim, este país estratégico, faltando apenas algumas semanas para a adesão à UE, ainda não conseguiu definir sua situação interna e se toda a ilha ou apenas sua parte sul ingressará como membro da União Européia. |