A Rússia diante do terrorismo
A crescente onda de terrorismo na Rússia, com o atentado a aviões e o massacre da escola de Beslan, no sul do país (ao lado da Chechênia), revelaram a fragilidade desta nação. O presidente Vladimir Putin chegou a afirmar que o país sofreu um grande enfraquecimento com o fim da União Soviética, e não tem condições de manter o controle e a segurança de antes. Para muitos, trata-se de um sinal de debilidade. Contudo, o governo reagiu com propostas de uma maior centralização, com o fim das eleições diretas para governador das províncias e repúblicas autônomas, além de novas medidas repressivas de controle. Então outros passaram a considerar que está havendo um retorno aos tempos soviéticos, como denunciou o Secretário de Estado norte-americano Collin Powell.
Quanto ao terrorismo na Rússia, especificamente, sua origem é dupla. De um lado, há o problema checheno, um pequeno povo muçulmano do norte do Cáucaso, conquistado pela Rússia no século XIX. Durante a Segunda guerra Mundial, parte significativa dele apoiou a invasão nazista e até formou unidades militares que lutaram contra os soviéticos. Com a reconquista da região, Stalin puniu-o coletivamente, deportando-o e dispersando-o por várias cidades e regiões da Sibéria e extremo oriente. Com a desestalinização, em 1956, Kruschov perdoou os chechenos e permitiu seu retorno, que ocorreu gradativamente. Com a desorganização que acompanhou a Perestroika de Gorbachov, nos anos 80, muitas atividades criminosas surgiram e foram protagonizadas por quadrilhas chechenas, como o tráfico de drogas e o contrabando.
Com a desagregação da URSS e a formação de quinze repúblicas (com base nas fronteiras administrativas anteriores), a Chechênia ficou fazendo parte da Federação russa e iniciou uma rebelião armada pela independência em 1994. Aí este problema se associou a um segundo, que é o legado islâmico anti-soviético da guerra do Afeganistão. Uma verdadeira internacional de combatentes muçulmanos de vários países, que haviam lutado no Afeganistão passou a atuar nas repúblicas da Ásia central e no Cáucaso, apoiando e estruturando os rebeldes chechenos (um dos comandantes rebeldes é jordaniano). Cabe lembrar que a pequena república está na rota dos oleodutos que partem do Mar Cáspio e se localiza na conturbada e estratégica fronteira sul da Rússia.
A primeira guerra da Chechênia foi desastrosa para uma Rússia enfraquecida e desorganizada, culminando num acordo que deixou a região numa posição de semi-independência dois anos depois. Com a ascensão de Putin ao poder em dezembro de 1999, a retomada e ampliação das ações guerrilheiras e terroristas chechenas para repúblicas vizinhas e atentados nas grandes cidades russas e no contexto pós-11 de setembro, teve início a segunda guerra da Chechênia. Embora os rebeldes tenham perdido o controle do território, ainda fazem incursões (especialmente a partir da Geórgia, onde há santuários da guerrilha) e atentados, como o do teatro de Moscou e o assassinato do presidente checheno pró-Rússia.
Putin, que apoiou a ação americana no Afeganistão, exige do Ocidente que os rebeldes tenham o mesmo status dos demais terroristas, o que não tem acontecido. No contexto de recuperação da economia e da administração da Rússia, o presidente aproveitou o massacre de Beslan para enquadrar os governadores e recentralizar o poder, sob protesto do ocidente. A Rússia constitui uma ponte terrestre entre a Ásia oriental e a Europa, zonas de forte desenvolvimento, e uma grande fornecedora de energia e recursos naturais para ambas regiões. Sua tecnologia espacial, militar e aeronáutica ainda é das mais avançadas, o país volta a ter influências nas ex-repúblicas soviéticas e começa a ter atitudes independentes na política internacional, afastando-se gradualmente do alinhamento com os EUA. Mas se trata da defesa de seus interesses nacionais e não uma volta ao socialismo |
Tibete e as tensões China-EUA
A recente visita do Dalai Lama aos Estados Unidos, sendo recebido pelo presidente George W. Bush, da mesma forma que a visita do presidente de Taiwan àquele país, insere-se na lógica de tensionamento das relações entre Washington e Pequim. No artigo anterior, sobre Taiwan, já analisei os interesses americanos em implementar tal estratégia. Buscar uma polarização na Ásia oriental, levando a China a endurecer em temas diplomáticos e de segurança, representa um elemento político precioso para a administração americana convencer os demais Estados da região de que o "Império do Centro" constitui uma ameaça. Desta forma, legitimar-se-ia, por exemplo, a iniciativa de construir o escudo antimísseis. Por esta razão, os dirigentes chineses tem reagido com prudência, mas com firmeza, aos incidentes como o do avião espião e, agora, às duas visitas aos EUA.
Quanto ao Dalai Lama, líder teocrático-secular tibetano exilado desde 1959 (quando ainda era adolescente), seu interesse é o de lograr o reconhecimento, por Pequim, de sua autoridade nos assuntos internos do Tibete (uma região autônoma da China), e não a independência. Esta tem sido defendida mais por monges dissidentes, apoiados por organizações norte-americanas e européias. O propósito de tal movimento seria preservar a identidade dos pouco mais de dois milhões de tibetanos (que ocupam 20% do território chinês, o qual abriga quase um bilhão e trezentos milhões de habitantes), que estaria ameaçada pelo governo central.
O Tibete localiza-se nas inóspitas montanhas do Himalaia, as mais altas do mundo, e ao longo de séculos tem oscilado entre a condição de Estado vassalo do império chinês e parte integrante dele. A região só surgiu como elemento de política internacional quando o colonialismo inglês exigiu sua zona de influência, do Tibete a Hong Kong, da então caótica China no século XIX. Com a desorganização do país ao proclamar-se a república em 1911, a elite feudal e escravocrata tibetana buscou afastar-se do governo central, que praticamente se desintegrara. Quando em 1950 os comunistas reocuparam a região, o Dalai Lama aceitou tal presença, pois as prerrogativas da elite dirigente tibetana foram mantidas. Contudo, no final da década, com a abolição da servidão, na esteira das transformações na agricultura, a casta dirigente se revoltou e, derrotada, exilou-se em 1959.
A tensão China-Japão: História ou diplomacia?
A irritação diplomática e as violentas manifestações populares chinesas são o resultado de mais uma tentativa do governo japonês de alterar os manuais escolares de história do país, ocultando as atrocidades cometidas pelo Império do Sol Nascente no Império do Centro ocupado. Não é a primeira vez que isto acontece e as reações costumam ocorrer em toda Ásia, invadida pelo Japão na Segunda Guerra Mundial: China e Taiwan, Coréia do Norte e do Sul, Vietnã e Filipinas, Indonésia e Austrália, Malásia e Mianmar (Birmânia). Isto se deve ao fato de que na Ásia, ao contrário da Europa, não houve a cicatrização das feridas da guerra, como ocorreu no velho continente, em grande parte devido à integração européia.
Geralmente o Japão recua, embora não chege a assumir formalmente sua culpa, pedindo desculpas de forma explícita, como manda a cultura asiática. Desta vez, contudo, o caso é algo diferente. O governo do primeiro ministro Koizumi tem acertado com os Estados Unidos um conjunto de medidas que a China considera hostis. Acordos militares, aumento do orçamento de defesa, compra de armamentos, parceria no Escudo Anti-Mísseis, insinuações na questão de Taiwan, entre outras questões, têm irritado as autoridades chinesas. Alterar os livros de história, neste contexto, significa sinalizar o ressurgimento do nacionalismo nipônico, de triste memória na região, e provocar uma reação chinesa.
Evidentemente as autoridades procuram canalizar as manifestações populares contra símbolos japoneses, especialmente econômicos, como forma de lembrar Tóquio que há interesses comerciais e financeiros seus que podem ser prejudicados. Mas as manifestações são genuinas, pois há um sentimento popular generalizado de profunda mágoa pelos sofrimentos e matanças promovidas pelo exército imperial japonês na China, como pude constatar pessoalmente em mais de uma oportunidade neste país. Vale lembrar que em 1999, durante a guerra do Kosovo, quando os Estados Unidos bombardearam a embaixada chinesa em Belgrado, houve reações anti-americanas violentas até em Taiwan!
As manifestações do nacionalismo japonês costumam também irritar os coreanos (do norte e do sul), pois ainda não foi completamente solucionado o problema das comfort women, jovens coreanas que foram forçadas a acompanhar o exército japonês, sendo convertidas em prostitutas.
O Japão, por sua vez, ainda que grande parceiro econômico da China, teme o crescimento deste país, que é mais forte militarmente e cuja economia está se convertendo na segunda do mundo, desbancando a posição japonesa. Assim, é compreensível que Tóquio busque aproximar-se da agenda da administração Bush. Quanto à China, tenta evitar que o Japão venha a ocupar uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU em caso de reforma. Daí, nada melhor do que lembrar ao mundo o passado japonês, que ainda não foi regularizado na região. Contudo, creio que o episódio representa uma provocação bem calculada, para gerar uma reação chinesa e afastar os dois gigantes asiáticos, num momento em que Pequim já enfrenta problemas em relação à Taiwan, que tem recebido crescente apoio de Washington. Assim, mais que à história do passado, a crise atual se deve à diplomacia do presente.
|